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Amigos e Companheiros:
 
Nasci quando principiava a Segunda Guerra Mundial e dela fui tendo notícia na minha primeira infância.
As minhas mais antigas recordações, no quadro familiar e da aldeia em que vivia, são reflexo da guerra que corria lá longe:
- as bichas do pão;
- as senhas do racionamento;
- o meu pai fazendo sabão para uso da família;
- o pão cozido sobre uma folha de couve no forno do fogão de lenha, quando se arranjava um pouco de farinha;
- o confisco de cereais que os agricultores escondiam como podiam, muitas vezes enterrado;
- a apanha um a um dos escaravelhos que dizimavam os batatais
- os homens que partiam de galochas altas, lanterna e picareta, na miragem do volfrâmio.


Recordo também o fim da guerra, anunciado num grito de exultação pelo meu pai que, chegado do trabalho ao fim da tarde, nos procurara impaciente, no quintal da casa.
Era, enfim, o mundo que mudava.
Mudou?
Assistimos com espanto à violenta guerra da Coreia, a sucessivas guerras na Indochina e em África.
Entramos nesse período ameaçador da Guerra Fria, com o espectro do conflito nuclear sempre pesando sobre nós, mas também com sinais de esperança abrindo-se aos nossos olhos: em muitos   países avançou a luta libertadora dos trabalhadores e dos povos.
Em numerosas sociedades foram ensaiadas e perduraram durante décadas novas experiências de organização e governo da sociedade.
A descolonização do terceiro mundo avançou e quase se concluiu.
A ciência progrediu a olhos vistos, as tecnologias desenvolveram-se, parecia chegado o momento em que, enfim liberto da penúria e de guerras, o Homem tomaria a vida em suas mãos e uma sociedade nova brotaria.
Mas não foi isso que aconteceu.
O desmantelamento da nebulosa de países socialistas no centro e no leste da Europa trouxe consigo um cortejo de conflitos que se vêm arrastando.
Nos Balcãs, os radicalismos étnicos e religiosos, os nacionalismos exacerbados e o imperialismo americano e europeu reinventaram a guerra.
A insurgência muçulmana, expressa através do obscurantismo dos talibãs, durante anos e anos apoiados e armados pelo imperialismo americano, e do violento terrorismo da Al Kaeda, com o clímax do 11 de Setembro,  criou o caldo de cultura que serviu de pretexto a avanços imperialistas destrutivos como a invasão e ocupação do Iraque e do Afeganistão.
O povo palestiniano continua a sofrer o sufocante domínio do estado de Israel que mantém a região sob a ameaça constante das agressões militares.
Sob impulso do imperialismo, o conflito na Síria ameaça alargar a guerra no Médio Oriente.
Resumindo: Com o fim da Segunda Guerra Mundial o mundo não mudou tanto quanto esperávamos.
Estamos, entretanto, longe do Mundo de meados do século passado.
A população mundial multiplicou-se por três. Não somos agora dois mil e quinhentos milhões mas sete mil e quinhentos milhões.
Entretanto, felizmente, os avanços da ciência e da tecnologia proporcionaram condições para que as necessidades dos homens possam hoje ser satisfeitas melhor que em qualquer outra época.
Mas é isso que acontece?
Não!
Pelo contrário, vivemos actualmente uma crise que tem feito recuar, por todo o mundo ocidental, as condições de vida dos povos.
Uma crise que ombreia com a grande crise de 1929/32 e que  não mostra ainda indícios de que possa ser ultrapassada e que aparentemente pode ter desenvolvimentos mais vastos e mais graves do que qualquer das crises que conhecemos até hoje.
A crise que vivemos desde há quatro / cinco anos é uma crise normal do capitalismo ou é outra coisa?
É geralmente aceite que o capitalismo tem implícita a sucessão de crises de “sobreprodução” ocorrendo ciclicamente.
Seria, então, expectável a crise que vivemos actualmente nos países europeus e nos EUA?
Ou, diferentemente, a profundidade desta crise, a sua extensão e as gravosas consequências que se manifestam em especial nos países europeus periféricos são resultado de novos condicionalismos?
Estou convicto de que a presente crise não é uma crise normal de ajustamento e que não será facilmente superada.
Fala-se muito de “financeirização da economia” - uma expressão equívoca e enganadora.
Enganadora porque nos leva a pensar que a economia se vem entrosando mais fortemente que no passado com as fontes financeiras quando a realidade é antes que se criou, em prejuízo da economia, nas últimas décadas, uma realidade paralela – o “comércio” financeiro.
Um “comércio” financeiro viciado, cujos grandes promotores não correm quaisquer riscos.
Desde há trinta /vinte anos temos vindo a assistir à substituição do esforço de investimento produtivo pela aplicação dos dividendos auferidos em “activos” financeiros, na compra de “produtos financeiros”.
A compra de produtos financeiros não é por si própria investimento; o conceito de investimento tem implícita a aplicação de meios monetários na aquisição de recursos humanos e técnicos capazes de potenciar a produção futura.
A aquisição de produtos financeiros não é em si mesma investimento, o qual só acontecerá se porventura esses ditos “produtos” assegurarem a disponibilização de meios financeiros para projectos produtivos.
A substituição do investimento produtivo pela estéril aplicação em produtos financeiros sem relação com a economia real conduziu-nos nos últimos vinte anos a dificuldades económicas graves e está a produzir consequências sociais catastróficas.
A menos que esta nova realidade do sistema financeiro seja rapidamente travada, a menos que seja rapidamente recuperada a função (bancária) de apoio financeiro à economia real, seremos conduzidos numa espiral destruidora dos avanços da economia alcançados depois da II Guerra Mundial e do nível de bem-estar geral alcançado.
Os níveis do Desenvolvimento Humano atingidos durante o Século XX serão então pulverizados, assistiremos ao agravamento brutal das desigualdades sociais e nas mais diversas áreas dos Direitos Humanos experimentaremos recuos não imaginados,.
A subsistência da presente libertinagem financeira permitirá que se mantenham e alarguem gigantescas concentrações de capital e porá em risco não apenas a já precária equidade social mas a independência e autodeterminação dos povos tornando-se uma ameaça à Democracia e à limitada Paz que temos vivido.
Mas por que vias podem desenvolver-se essas muito graves consequências?
Como temos visto até hoje, como o passado século testemunhou, o risco é que estados e outros centros de poder disputem a supremacia económica pela opressão política e pela guerra.
As classes e cliques instaladas no poder, nomeadamente as que dominam massas financeiras gigantescas, têm desenhado soluções institucionais que as põem (só provisoriamente, espero) ao abrigo da revolta popular e procuram construir soluções de poder que eternizem a sujeição das grandes massas populacionais marginalizadas.
Mas não há, então, esperança para a Humanidade?
Há, certamente, e ela depende do alargamento da consciência cidadã dos trabalhadores e dos povos e da sua vontade de lutar porfiadamente em defesa da Liberdade, da Democracia e pela construção de uma sociedade livre, pacífica e democrática.
Este caminho faz-se dizendo “presente!”, em pequenos mas significativos contributos para a construção de um futuro melhor.
Como esta Assembleia!
Viva a luta dos trabalhadores e dos povos!
Viva a Paz e a Democracia!
 
ASSEMBLEIA DA PAZ
Lisboa, 20.OUT.2012
Avelino Gonçalves