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A FEDERAÇÃO MUNDIAL DOS TRABALHADORES CIENTÍFICOS NA LUTA PELA PAZ
 
Em 1940, Paris sofria a ocupação nazi. Para espanto de muitos, o Professor Joliot-Curie galardoado com o Prémio Nobel da Química em 1935, prosseguia os seus trabalhos de investigação no Collège de France, situado em pleno centro da cidade. Os alemães podiam entrar e sair à vontade nas instalações e no gabinete do mestre, e escutar as conversas que mantinha com estudantes e colaboradores. Por isso mesmo não suspeitavam do que lá se passava. Fabricava-se o piróxilo ou algodão-pólvora, matéria explosiva mais potente que a pólvora comum, que fazia ir pelos ares os comboios da Wehrmacht. Sob as tábuas do sobrado escondiam-se minas, granadas e cocktails molotov usados contra veículos blindados. Joliot-Curie deixara de projectar aceleradores de partículas para fabricar emissores-receptores que nas mãos da Resistência ― os “maquisards” ― eram um instrumento de importância vital. “maquisards” ou guerrilheiros, cujo papel na libertação da França e na derrota do nazi-fascismo importa recordar, hoje como ontem. Na verdade, aos homens como aos povos assiste o direito de responder à violência com a violência, em legítima defesa, quando as circunstâncias o exigem embora tudo devam fazer para que se chegue aí.


 
Frédéric Joliot-Curie marcou a história, não como fabricante de engenhos explosivos, mas como estrénuo, inteligente e combativo defensor da Paz.
A sua estatura intelectual e o seu enorme prestígio de cientista, permitiram, imediatamente após o fim da guerra de 39-45, concertar vontades, irmanar colegas de profissão, figuras notáveis de outras áreas e cidadãos comuns, em direcção um objectivo preciso e concreto: a defesa da Paz e da cooperação entre os povos. Nesta perspectiva, o seu papel na aproximação entre cientistas de primeira grandeza, do campo socialista e do bloco ocidental, foi extremamente importante.
 
Joliot-Curie foi o primeiro presidente da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos, fundada em Londres, em Julho de 1946. Quatro anos mais tarde, em 1950, Frédéric Joliot era chamado a presidir ao recém-criado Conselho Mundial da Paz posição que ocupou até à sua morte prematura em 1958. Sucedeu-lhe John Desmond Bernal, físico notável de nacionalidade irlandesa. Nas origens da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos, ao lado de Joliot-Curie encontram-se nomes prestigiados de cientistas, como Paul Langevin, Patrick Blackett, John Bernal, Cecil Powel e Maurice Wilkins. Bernal redigiu a Carta de princípios que é o texto fundador da Federação Mundial.
 
Desde sempre a questão da Paz e do desarmamento geral e completo, incluindo portanto as armas nucleares, estas vistas como a principal ameaça à paz mundial no período da guerra fria, estiveram no primeiro plano das preocupações e da acção militante da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos. Respigamos dos Estatutos da FMTC as seguintes passagens.
 
“ (…) muitos dos problemas da humanidade continuam por resolver. Estes incluem problemas herdados do passado e aqueles que surgiram na época contemporânea. A maioria dos humanos vive, como sempre, em condições de pobreza ou mesmo de miséria. A diferença entre os níveis de desenvolvimento económico, social e cultural de alguns países e os restantes, ou seja, a maior parte do mundo, continua a aumentar. O problema demográfico e a questão alimentar, que se manifesta, principalmente, como subnutrição crónica e até mesmo fome, são fonte de grande preocupação para os povos do mundo. Um ataque descontrolado à natureza e a voraz exploração dos recursos naturais não renováveis, coloca-nos à beira de uma catástrofe ecológica. A maior ameaça para a própria existência da espécie vem do enorme arsenal de armas de destruição de massa, especialmente de armas nucleares. Se tais armas fossem usadas na guerra levariam à total aniquilação da civilização no planeta.”
 
Desde a sua criação, a FMTC insistentemente defende “o reconhecimento por parte dos cientistas das suas responsabilidades sociais”. A Federação Mundial apela a todos os trabalhadores científicos a que “transcendam diferenças políticas, religiosas e outras e formem uma frente unida para a abolição total da maior ameaça para a humanidade (as armas de destruição massiva) e por soluções para os problemas globais sociais, económicos e ecológicos.”
“A FMTC considera que a única forma de evitar a aniquilação da civilização humana resultante do abuso da ciência é antes de tudo, abolir totalmente as armas nucleares e rejeitar a guerra como instrumento de política nacional. (…) A FMTC é favorável à colaboração com todas as organizações que trabalham pela paz e o desarmamento. A democratização das condições do desenvolvimento científico é um pressuposto fundamental para abordar com sucesso muitas das tarefas que enfrenta. (…) A Federação Mundial presta especial atenção ao envolvimento das mulheres e jovens cientistas no processo científico que considera essencial para identificar e resolver os problemas que se colocam.” Vê “uma maior compreensão e aceitação popular da ciência ao serviço da humanidade, como uma das condições principais para construir uma nova civilização no século 21.”
 
A Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos está presente em quatro continentes através das suas organizações filiadas, que são em regra associações sindicais representativas de trabalhadores científicos. A sua influência alarga-se neste momento na Europa de Leste e nos países do Maghreb. O trabalho da Federação orientado para as questões da Paz e do desarmamento, organiza-se actualmente no seio de uma comissão especializada coordenada por um dos vice-presidentes da Federação, o Professor Shreesh Juyal, canadiano de origem indiana ― o International Committee on Peace and Disarmament. Os temas abordados mais recentemente no seio da Comissão, têm a ver com novos armamentos e formas de guerra ― os robots militares; as armas ditas “não-letais” de tecnologia avançada que actuam sobre os sentidos ou sobre o sistema nervoso central, utilizáveis no controlo de populações civis, e a guerra cibernética.
Por regra são elaborados documentos de informação e tomadas de posição sobre as questões tratadas que vêm a público nas newsletters que a Federação Mundial publica regularmente, podem ser vistas no site da FMTC[1] e também no site da OTC-Organização dos Trabalhadores Científicos[2]. Por último, interessa referir, o trabalho em curso, já não no âmbito desta Comissão mas no de outras, que respeitam designadamente à análise da questão energética e aos problemas ligados à água, em ambos os casos numa perspectiva global ou se se quiser, planetária.
 
Muito obrigado pela vossa atenção.
 
Frederico Carvalho
Vice-Presidente do Conselho Executivo da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos
20 de Outubro de 2012
 
[1] http://www.fmts-wfsw.org
[2] http://www.otc.pt