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11 de Fevereiro de 1990


Amigos, camaradas e concidadãos sul-africanos

Saúdo-vos a todos em nome da paz, democracia e liberdade para todos.

Estou aqui perante vós não como um profeta mas como humilde servidor vosso, do povo. Os vossos sacrifícios incansáveis e heróicos tornaram possível que eu aqui estivesse hoje. Por isso, coloco os restantes anos da minha vida em vossas mãos.


Neste dia da minha libertação, eu apresento a minha sincera e calorosa gratidão aos milhões de meus compatriotas e aqueles que em todos os cantos do mundo lutaram incansavelmente pela minha libertação.

Envio uma saudação especial ao povo da Cidade do Cabo, esta cidade que tem sido a minha casa durante três décadas. As vossas manifestações e outras formas de luta serviram como uma constante fonte de estímulo para todos os presos políticos.

 

Saúdo o Congresso Nacional Africano. Cumpriu todas as nossas expectativas no seu papel dirigente na grande marcha para a liberdade.
Saúdo o nosso Presidente, camarada Oliver Tambo, por ter dirigido o ANC mesmo em circunstâncias difíceis.


Saúdo as bases do ANC. Sacrificaram a vossa vida e integridade física na defesa da nobre causa da nossa luta.


Saúdo os combatentes do Umkhonto we Sizwe [Lança da Nação], como Solomon Mahlangu e Ashley Kriel que pagaram o preço último pela liberdade de todos os sul-africanos.


Saúdo o Partido Comunista da África do Sul pela sua forte contribuição para a luta pela democracia. Vocês sobreviveram a 40 anos de perseguição implacável. A memória de grandes comunistas como Moses Kotane, Yusuf Dadoo, Bram Fischer e Moses Mabhida será lembrada pelas gerações vindouras.


Saúdo o Secretário-geral Joe Slovo, um dos nossos melhores patriotas. Estamos animados pelo facto da aliança entre nós e o Partido continuar tão forte como sempre foi.


Saúdo a Frente Democrática Unida [United Democratic Front], o Comité Nacional da Crise na Educação [National Education Crisis Committee], o Congresso da Juventude Sul Africana [South African Youth Congress], os Congressos Indianos do Natal e Transvaal [Transvaal and Natal Indian Congresses] e o COSATU [Congresso dos Sindicatos Sul Africanos] e muitas outras organizações do Movimento Democrático de Massas.


Saúdo igualmente o Black Sash [Faixa Negra – Organização de Resistência das Mulheres Brancas da África do Sul] e a União Nacional do Estudantes Sul Africanos. Constatamos com orgulho que agiram como a consciência da África do Sul branca. Mesmo durante os dias mais sombrios da história da nossa luta levantaram bem alto a bandeira da liberdade. A vasta mobilização de massas dos últimos anos é um dos principais factores que conduziram à abertura do capítulo final da nossa luta.


Dirijo as minhas saudações à classe trabalhadora do nosso país. A vossa força organizada é o orgulho do nosso movimento. Continuam a ser a força mais segura da luta pelo fim da exploração e opressão.


Presto homenagem às muitas comunidades religiosas que conduziram a campanha pela justiça quando as organizações do nosso povo foram silenciadas.
Saúdo os dirigentes tradicionais do nosso país – muito de vós continuais a seguir os passos dos grandes heróis como Hintsa e Sekhukune.
Presto homenagem ao heroísmo sem fim da juventude, vós, os jovens leões. Vocês, os jovens, dinamizaram toda a nossa luta.


Presto homenagem às mães e mulheres e irmãs da nossa nação. Vocês são a pedra base da nossa luta. O apartheid infligiu-vos mais dor do que a quaisquer outros.
Nesta ocasião, agradecemos a comunidade internacional pela sua grande contribuição na luta contra o apartheid. Sem o vosso apoio a nossa luta não teria chegado a esta fase avançada. O sacrifício dos países da Linha de Frente será lembrado para sempre pelos sul-africanos.


As minhas saudações ficariam incompletas se não manifestasse o meu profundo reconhecimento pela força que me foi dada durante os longos e solitários anos de prisão pela minha amada mulher e família. Estou certo de que a vossa dor e sofrimento foram muito maiores que os meus.


Antes de avançar quero afirmar que nesta altura apenas tenciono fazer alguns comentários preliminares. Irei fazer uma declaração mais completa só depois de ter a oportunidade de falar com os meus camaradas.


Hoje, a maioria dos sul-africanos, negros e brancos, sabe que o apartheid não tem futuro. Tem que acabar através da nossa própria acção de massas fundamental para construir a paz e segurança. A vasta campanha de desafio e outras acções da nossa organização e do povo só podem culminar na instauração da democracia. A destruição causada pelo apartheid no nosso subcontinente é incalculável. O tecido da vida familiar de milhões do meu povo foi destruído. Milhões estão sem abrigo e desempregados. A nossa economia encontra-se em ruínas e o nosso povo mergulhado em conflitos políticos. O nosso recurso à luta armada em 1960 com a criação da ala militar do ANC, Umkhonto we Sizwe, foi uma acção puramente defensiva contra a violência do apartheid. Os factores que tornaram necessária a luta armada ainda hoje existem. Não temos outra escolha senão continuar. Temos a esperança que um clima conducente a um acordo negociado será em breve criado para que deixe de haver a necessidade da luta armada.


Eu sou um membro leal e disciplinado do Congresso Nacional Africano. Estou portanto totalmente de acordo com os seus objectivos, estratégias e tácticas.


A necessidade de unir o povo do nosso país é agora uma tarefa importante, como sempre foi. Nenhum dirigente sozinho é capaz por si só de levar a cabo esta enorme tarefa. É nossa tarefa como dirigentes de apresentar as nossas opiniões à nossa organização e deixar que as estruturas democráticas decidam. Sobre a questão da prática democrática, tenho o dever de afirmar que o líder do movimento é uma pessoa que foi eleita democraticamente numa conferência nacional. É este o princípio que deve prevalecer sem excepções.


Hoje, quero dizer-vos que as minhas conversações com o governo tiveram como objectivo normalizar a situação política no país. Ainda não começamos a discutir as exigências fundamentais da luta. Quero sublinhar que eu próprio nunca entrei em negociações sobre o futuro do país, excepto para insistir num encontro entre o ANC e o governo.


O Sr. De Klerk foi mais longe do que qualquer Presidente Nacionalista ao dar passos para normalizar a situação. Contudo, existem mais passos, de acordo com o traçado na Declaração de Harare, que devem ser dados antes de iniciar as negociações para as exigências fundamentais do nosso povo. Reafirmo o nosso apelo para, entre outros, o fim imediato do Estado de Emergência e a libertação de todos, e não apenas de alguns, prisioneiros políticos. Só uma tal situação normalizada, que permita uma actividade política livre, pode permitir-nos consultar o nosso povo para obter um mandato.


O povo precisa ser consultado sobre quem irá negociar e o conteúdo dessas negociações. As negociações não podem ter lugar por cima das cabeças ou por trás das costas do nosso povo. É nossa convicção que o futuro do nosso país, só pode ser decidido por um órgão eleito democraticamente numa base não racial. As negociações para o desmantelamento do apartheid terão que responder à esmagadora exigência do nosso povo de uma África do Sul, democrática, não racial e unida. Dever ser posto fim ao monopólio branco sobre o poder político e uma reestruturação fundamental do nosso sistema político e económico para garantir que as desigualdades do apartheid são enfrentadas e a nossa sociedade totalmente democratizada.


Deve-se acrescentar que o Sr. De Klerk é um homem íntegro que conhece muito bem os perigos de uma figura pública não honrar os seus compromissos. Mas como organização baseamos a nossa política e estratégia na dura realidade que enfrentamos. E a realidade mostra que ainda sofremos a política do governo Nacionalista.
A nossa luta chegou a um momento decisivo. Apelamos ao nosso povo que aproveite este momento para que o processo para a democracia seja rápido e ininterrupto. Esperamos tempo demais pela nossa liberdade. Não podemos esperar mais. É este o tempo de intensificar a luta em todas as frentes. Abrandar os nossos esforços agora seria um erro que as gerações vindouras não poderão desculpar. A visão da liberdade no horizonte deve encorajar-nos para redobrar os nossos esforços.


Só com a acção de massas disciplinada a nossa vitória estará assegurada. Apelamos aos nossos compatriotas brancos para que se juntem a nós na criação de uma África do Sul nova. O movimento pela liberdade é também a vossa casa política. Apelamos à comunidade internacional para que continue a campanha de isolar o regime do apartheid. Levantar agora as sanções seria correr o risco de abortar o processo de erradicação total do apartheid.


A nossa marcha para a liberdade é irreversível. Não podemos deixar que o medo surja no nosso caminho. O sufrágio universal, num caderno eleitoral comum, numa África do Sul unida, democrática e não racial é o único caminho para a paz e harmonia racial.


Para concluir quero citar as minhas próprias palavras durante o meu julgamento em 1964. Continuam verdadeiras hoje como eram então:


“Tenho lutado contra a dominação branca e tenho lutado contra a dominação negra. Defendo o ideal de uma sociedade livre e democrática onde as pessoas vivam em harmonia, com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual desejo viver e atingir. Mas se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer”.