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O Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) e a União de Resistentes Anti-fascistas Portugueses (URAP) realizaram, no Clube Estefânia, no passado dia 27 uma sessão sobre a situação na Ucrânia.
Nesta sessão, que contou com dezenas de participantes, ambas as organizações expressaram a sua solidariedade para com o povo da Ucrânia, assim como a sua preocupação com a escalada de violência desencadeada sobre as populações do Leste da Ucrânia que se recusam a reconhecer a legitimidade do poder exercido pelas forças golpistas de Kiev que, para defender os interesses dos grandes oligarcas, não hesitam em utilizar a força militar, recorrendo inclusive a grupos paramilitares que se reivindicam da herança nazi-fascista.

 

Leia a intervenção inicial de Gustavo Carneiro, da Direcção Nacional do CPPC:

“Boa tarde,
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à URAP, por se juntar a nós nesta iniciativa; ao Clube Estefânia, pela activa colaboração com o CPPC nesta como noutras realizações; a todos vós, por estarem aqui hoje a tentarem, connosco, compreender melhor a situação difícil por que passa a Ucrânia e o seu povo. Uma situação que, além do mais, é volátil e tantas e tantas vezes apresentada pelos meios de comunicação social «dominante» de forma unilateral, truncada e tendenciosa.
As minhas primeiras palavras, em nome do Conselho Português para a Paz e Cooperação, são de profunda preocupação com a situação de autêntica guerra civil que se vive hoje nas regiões mais orientais da Ucrânia – o saldo conhecido é, até ao momento, de largas centenas de mortos e muitos milhares de refugiados. Procuraremos em seguida lançar algumas pistas para a análise desta difícil situação, de como se chegou a ela, e procurar reafirmar alguns princípios essenciais que, a serem levados por diante, poderiam contribuir decisivamente para a resolver – cabendo esta tarefa, em primeiro lugar, ao próprio povo da Ucrânia.
O que podemos dizer é que nada disto começou agora, independentemente do salto qualitativo registado nos últimos meses na política ucraniana e por mais que apenas há uns meses a comunicação social tenha começado a falar sobre este país do Leste da Europa. De facto, desde o fim da União Soviética que se vive na Ucrânia um processo de rápida degradação das condições de vida do povo e do aparelho produtivo: muito embora mantenha ainda alguns sectores industriais consideráveis, muitos foram destruídos ao longo das últimas décadas, provocando o aumento do desemprego e das desigualdades, a polarização da riqueza (com o surgimento dos tão falados «oligarcas»), o empobrecimento e, como tão bem o sabemos por cá, a emigração massiva de trabalhadores ucranianos. Peça-chave deste processo de empobrecimento e submissão foi a intervenção catastrófica do FMI na Ucrânia, na viragem do milénio.
Todo este processo não deixou de ter, como é evidente, consequências políticas. Em 2004, deu-se a tão falada «revolução laranja», que não só não inverteu este processo como o prosseguiu e intensificou. O mesmo sucedeu com a presidência de Viktor Ianukovitch. O descontentamento do povo ucraniano, claramente visível no final do ano passado e no início deste ano tinha razões reais, legítimas e perfeitamente compreensíveis.
Para além da dimensão interna, há também outros factores – de carácter externo – que para o CPPC são de grande importância para a compreensão do que verdadeiramente está em causa na crise ucraniana. Desde o fim da União Soviética que os EUA têm levado a cabo uma estratégia de cerco à Federação Russa, patente no alargamento da NATO (e da UE – o seu braço europeu) a Leste, através da adesão ou das parcerias – Polónia, estados bálticos, Geórgia –, mas também na proliferação de bases militares em torno da Rússia (e de outros países de regiões), no mal chamado «escudo anti-míssil», visando ameaçar a paridade nuclear dissuasora, ou nas inúmeras revoluções coloridas que têm sido promovidas em antigas repúblicas soviéticas, que têm como um dos seus objectivos colocar os respectivos países ao serviço desta estratégia de confrontação.
A Rússia (que não é a União Soviética) tem imensos e valiosíssimos recursos naturais e energéticos, de que os EUA necessitam para cumprir aquele que é o seu objectivo central: o domínio hegemónico do Mundo. Além disso, está em curso um processo de rearrumação de forças a nível global, nomeadamente a aproximação da Rússia à China, que os EUA querem a todo o custo evitar – pois agravará e intensificará o seu declínio relativo em termos económicos.
No caso ucraniano, tal objectivo necessitava, para ter sucesso, do acentuar e do agudizar de clivagens entre o povo ucraniano e o povo russo, unidos por longas e históricas relações – é neste processo que se insere o apoio dado ao longo dos anos, por parte dos EUA, a forças retrógradas, xenófobas e nacionalistas – a quem o imperialismo confessadamente apoiou com 5 mil milhões de dólares. Forças movidas por intensos sentimentos anti-russos e assumidamente inspirados no nacionalismo fascista de Stepan Bandera, que colaborou com os nazis no assassinato de milhares de cidadãos ucranianos de origem russa, polaca, judaica ou cigana.
Esta ingerência dos EUA, da UE e da NATO, que tem anos e responde a uma estratégia há muito definida, teve um ponto alto no final do ano passado, na sequência da recusa do antigo presidente Viktor Ianukovitch em assinar o Acordo de Associação com a União Europeia (assinado hoje). Sabemos por experiência própria o que significa submeter um país à União Europeia; conhecemos as teias de submissão que são tecidas; a destruição do tecido produtivo nacional, os milhões que vêm, só para alguns e condicionados à destruição de sectores produtivos, à liberalização de sectores, à privatização de empresas – como consequência, ao empobrecimento das camadas populares.
Mas sabemos também por experiência própria toda a propaganda e manipulação em torno das «vantagens» de aderir à UE. Também a nós, nos anos 80 do século XX, nos foi prometida a prosperidade e o progresso, também a nós nos garantiram o «pelotão da frente» e salários iguais aos alemães. A realidade é hoje bem visível... Tal como sucede hoje com parte do povo ucraniano, também em Portugal foram muitos aqueles que depositaram na adesão à então CEE as suas legítimas aspirações de melhoria das suas condições de vida. A diferença de posições relativamente a esta questão – ligadas a justas críticas relativas à corrupção e ao poder das oligarquias – despoletou a mais recente crise na Ucrânia. A passagem em bloco da oligarquia para o lado dos EUA e da UE e a entrada em cena dos grupos paramilitares de extrema-direita, que rapidamente passaram a assumir a direcção do processo nas ruas, precipitou os acontecimentos. A instrumentalização e manipulação de justos anseios e aspirações dos povos é, sabe-se, uma prática antiga do imperialismo...
Consumado o golpe de Estado que depôs Viktor Ianukovitch, várias forças ditas «pró-ocidentais» e organizações que se reclamam da ideologia nazifascista (como o Svoboda ou o Sector de Direita) tomaram o poder em Kiev. A par do ataque a partidos e organizações que se lhes opunham, através da violência, da intimidação ou do medo, decretaram a proibição da língua russa, que é falada por uma grande parte da população ucraniana, sobretudo a que reside no Sul e Leste do país. O que daí decorreu, concorde-se ou não, tem na política do poder golpista a sua causa primeira – o processo de auto-determinação da Crimeia, que após a aprovação esmagadora em referendo, retornou à Rússia, e os levantamentos populares no Sul e sobretudo no Leste da Ucrânia.
No caso das autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk – entretanto reunidas na União das Repúblicas Populares do Donbass –, tudo aponta para que elas resultem de levantamentos populares heterogéneos, de forças muito diversas, unidas na rejeição do golpe, da violência e da guerra, na exigência do respeito pelas diferenças linguísticas, religiosas, culturais e políticas do povo ucraniano. A federalização do país era a proposta inicial da maioria destas populações – a que o «governo» golpista respondeu com a violência e a guerra civil que actualmente se trava naquela região.
No que respeita particularmente à guerra, ela é travada com meios muito desproporcionados. O que não invalida as dificuldades reais que a junta de Kiev tem sentido para «resolver» o problema. A recusa de muitas unidades e militares de se juntarem à repressão massiva das populações do Donbass obrigaram a uma «reorganização» das Forças Armadas e à criação da Guarda Nacional, onde pontificam unidades e activistas das forças paramilitares neonazis do Sector de Direita e do Partido Svoboda – que até há pouco tempo se chamava Partido Nacional-Socialista. Foram estas forças – integradas ou não na Guarda Nacional – que levaram a cabo o massacre de Odessa, recorrendo a claques de futebol e a elementos de provocação já ensaiados noutros conflitos de outras zonas do globo.
Ao mesmo tempo que a situação da Ucrânia evolui desta forma, os EUA, a UE e a NATO intensificam a ingerência e o envolvimento no desenrolar da situação interna deste País – programas do FMI, Acordo de Associação com a UE, deslocação de meios militares para a região, manobras no Mar Negro e no Báltico, etc.
A situação na Ucrânia, que tem causas e razões endógenas, não pode ser vista de forma isolada, até tendo em conta o peso que a ingerência externa assume no desenrolar da situação desde o início. Ela insere-se numa escalada mais ampla de ingerência, tensão e confronto, de guerra e de militarização das relações internacionais – que EUA e seus aliados estão a levar a cabo. Na Europa de Leste, sim, mas também no Médio Oriente, na recolonização de África, na ingerência constante na América Latina, na deslocação de importantes meios militares para o extremo Oriente e Pacífico Sul.
Tendo em conta esta situação, cujas consequências são ainda imprevisíveis e perigosas – não só para o povo ucraniano como para os povos da Europa –, o CPPC considera essencial mobilizar todos aqueles que defendem os valores da Paz, do progresso e da justiça social para que manifestem a sua solidariedade ao povo ucraniano na sua luta pelo progresso, a justiça social e a soberania, sem ingerência externa. Do Governo português exige-se, em conformidade com a Constituição que está obrigado a cumprir, que assuma uma política externa independente e soberana e não, como sucede, subordinada aos interesses dos EUA, da NATO e da União Europeia.
Foi esta submissão – e não os intersses do povo português e de Portugal – que levaram sucessivos governos a alinhar com o imperialismo na destruição da Jugoslávia, do Iraque e da Líbia e a patrocinar o terrorismo islâmico na Síria, com vista à desagregação deste país. Ao povo português, a um País liberto dos constrangimentos em que o procuram manter enredado, interessa a promoção de relações de amizade com todos os povos do Mundo, a cooperação mutuamente vantajosa, a paz, o fim dos blocos político-militares, o respeito pelos princípios da igualdade na relação entre estados. Foi esse caminho, consagrado na Constituição da República Portuguesa, que Abril encetou e que nos cabe, hoje, cumprir.
Obrigado.”