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por José Goulão*

O cessar-fogo na Síria patrocinado pelos Estados Unidos e a Federação Russa, levando a reboque uma ONU cada vez mais desqualificada, manipulada e irrelevante, poderá poupar vidas humanas, permitir um sabor de normalidade a populações sujeitas há meia década ao pavor da guerra, proporcionar até alguns dias e noites livres da angústia do medo. Mas pode ser também uma traiçoeira ilusão, se os tutelares desta iniciativa não forem além dela de forma a encontrarem uma solução capaz de restabelecer a soberania, a integridade e a paz na Síria.

Este é o cerne da questão. Além de precário e periclitante, o cessar-fogo não está a ser acompanhado por medidas credíveis capazes de o consolidar e transformar em acordo de paz. Procurando não interpretar as violações já cometidas como sinais de fracasso à vista – como fazem os que vêem na guerra um caminho inevitável – a verdade é que os episódios de violência ocorridos já durante a suspensão dos combates revelam a fragilidade do acordo, apesar de conseguido pelas duas mais poderosas potências mundiais.

 

As razões desta fragilidade são várias e todas elas de peso. Podem ser enumeradas por uma ordem que não obedece forçosamente a critérios importância relativa na debilidade do processo.

Em primeiro lugar, o modo como o cessar-fogo foi definido vem proporcionar uma legitimidade e uma representatividade que não têm aos terroristas “moderados” criados pelos Estados Unidos e a União Europeia, associados no “grupo dos amigos da Síria”, atribuindo um papel na chamada “oposição síria” a organizações de mercenários – religiosos ou não – criadas no estrangeiro por serviços secretos de vários países, recorrendo a sectores mafiosos e criminosos.

Em segundo lugar, é do conhecimento geral que estes terroristas “moderados” não têm qualquer autonomia militar no terreno, porque dependem operacionalmente das duas expressões principais do “fundamentalismo islâmico” actual: a al-Qaida, com os seus diversos heterónimos, e o Daesh, ou Isis ou “Estado Islâmico”. Este facto, regularmente comprovado mesmo pelos meios de comunicação do establishment norte-americano, torna quase impossível que as tropas dos Estados Unidos cumpram plenamente o papel que anunciaram para o cessar-fogo, isto é, o combate aos principais grupos terroristas. Se o praticarem, arriscam-se a atingir organizações que treinam e financiam. Trata-se de uma situação clara e perversa de conflito de interesses: por essa razão tem sido praticamente inexistente o combate do Pentágono contra o Daesh anunciado há mais de um ano. As perdas reais e importantes sofridas de facto por este grupo têm sido provocadas pelo esforço conjunto da força aérea russa e das tropas regulares sírias.

Exemplo da grande debilidade de que enferma o cessar-fogo é o episódio ocorrido há poucos dias em Jebel Tharda, no qual quatro aviões norte-americanos baseados no Iraque – dois F-16 e dois A10 – atacaram um destacamento do exército sírio, matando mais de 60 soldados e ferindo mais de 100, permitindo, com essa operação, que os terroristas do Daesh conquistassem o aeroporto e base militar de Deir el-Zor, então em poder das tropas de Damasco. Washington atribui as ocorrências a um “erro dos serviços secretos”, explicação que não convence – muito menos a Rússia – porque há muito se conhecem as reais cumplicidades entre a espionagem norte-americana e o “Estado Islâmico”. Tratou-se, sem dúvida, de um “erro” absolutamente sintonizado com a prolongada estratégia norte-americana de destruição da Síria e que deixa aberta a hipótese de o governo dos Estados Unidos e o Pentágono não estarem de boa-fé no cessar-fogo.

Acresce que o acordo russo-norte-americano, embora escudado no arranjo estabelecido em Genebra em 2012, não garante ao governo legítimo da Síria um papel de parte inteira no combate ao terrorismo, obrigado a deixar essa frente para as duas grandes potências mundiais e sem ter a garantia de que – ao contrário do que estabelece o acordo de Genebra – as eventuais negociações sobre o futuro do país não reconheçam o lugar que pertence ao governo de Damasco.

Ainda outra situação que revela a fragilidade do cessar-fogo é o facto de os Estados Unidos se recusarem a concretizar com a Rússia o comando conjunto das operações de combate ao terrorismo, tal como está previsto no acordo. Washington alega que Moscovo tem impedido a passagem à prática de outra rubrica do entendimento, a criação de corredores ditos “humanitários” sob a égide da ONU, o que é parcialmente verdade. O que falta para apurar a totalidade da verdade é conhecer a disponibilidade dos Estados Unidos para que esses corredores deixem de ser – como tem acontecido até agora – vias de fuga e reorganização de terroristas – moderados ou não – de fornecimento de armas aos ditos “rebeldes”, por vezes garantido por canais da ONU, fazendo do cessar-fogo uma manobra para que os grupos terroristas recuperem, durante a paragem dos combates, parte do que perderam na guerra. Nesta perspectiva, o cessar-fogo não seria mais do que um artifício para dar novo fôlego aos agentes da guerra e da destruição. Moscovo exige que os corredores a criar tenham apenas teor humanitário, mas o controlo norte-americano sobre as estruturas das Nações Unidas permite que o impasse se mantenha, minando o cessar-fogo.

No fundo, o principal factor que descredibiliza o cessar-fogo é o comportamento dúbio dos Estados Unidos, um dos seus pilares. Washington diz pretender a paz e combater o terrorismo, mas tem alimentado a guerra, apostado na destruição da Síria – como fez com o Iraque e a Líbia – sem beliscar a sério o terrorismo, mantendo-o como reserva estratégica para o seu objectivo de controlo mundial.

*Jornalista e membro da Presidência do CPPC