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José Goulão, jornalista e membro da Presidência do CPPC

Um vídeo com pouco mais de seis minutos, publicado no Youtube, vale como um tratado de alta política e de minuciosa geoestratégica. Pelo menos à altura e com a minúcia da política e da estratégia como se praticam nos tempos que correm.

Deixo-vos o endereço do vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=sSx8yLOHSUs

A veracidade da peça não suscita dúvidas, porque a intérprete já a confirmou ao acusar os serviços secretos russos de a terem espiado, e logo a ela, uma subsecretária do Estado que espia meio mundo e também a outra metade.


No vídeo, a Srªa Victoria Nuland, subsecretária de Estado norte-americana para a Europa e a Euroásia, e o Sr. Geofrey Pyatt, embaixador dos Estados Unidos na Ucrânia, trocam impressões sobre a estratégia a adoptar para controlar os acontecimentos neste país europeu, a principal frente da renovada guerra fria. Enquanto manifestantes se esfalfam na Praça Maidan de Kiev atrás de dirigentes em que acreditam piamente, ou porque lhes prometem a democracia e a liberdade plenas ou então tudo isto e ainda mais o céu da União Europeia, a Srª Nuland e o Sr. Pyatt, provavelmente tal como a Srª Merkel, o Sr. Barroso, mais o Sr. Putin, combinam o modo de conduzi-los como peças do xadrez dos seus interesses. Peões especiais porque o Sr. embaixador confessa que “a peça Klitschko é o electrão mais complicado” neste “jogo”.

Klitschko, o boxeur, é a revelação política dos últimos acontecimentos, o favorito da Srª Merkel e que agora se mudou da sua residência alemã para as confusões de Kiev. No vídeo percebemos, porém, que não é o homem dos americanos.

“Iatseniuk é o gajo”, esclarece a Srª Nuland, que serviu tão fielmente Cheney, o vice-presidente de Bush, como serve agora Kerry, o secretário de Estado de Obama, declarando-se ela “uma neoconservadora”. Iatseniuk, Arseni Iatseniuk, é o chefe parlamentar do grupo da Srª Tymochenko, a pedra preciosa da “revolução laranja”, ex-primeira ministra que agora cumpre sete anos de prisão por alta corrupção. Washington permanece fiel à “revolução laranja”, mesmo estragada.

Sendo Istseniuk “o gajo” para os americanos, poderia pensar-se que quando coubesse a estas democráticas figuras formar governo – o que ainda não conseguiram apesar da hipótese dada pelo presidente Viktor Ianukovitch, “o homem de Moscovo” – o boxeur Klitscko daria um bom vice-primeiro ministro. Nem pensar, recomenda a Srª Nuland ao embaixador: ele tem de ficar “fora do governo”.

E porquê? “To fuck the EU”, a União Europeia, explica a subsecretária – evito pormenorizar, não por pudor mas por ser desnecessário. Nem mais: “to fuck the EU”, neste caso sobretudo a Srª Merkel e a sua “complicada peça” de boxeur-electrão. Para tal, subsecretária e embaixador combinaram ainda como tirar proveito de um dos homens que Washington pôs a controlar o secretário geral da ONU para que esta organização nomeie um ex-chefe de operações da NATO como seu representante em Kiev. “Seria formidável”, entusiasmou-se a Srª Nuland.

Quando os senhores do  mundo nos falam em democracia, liberdade, direitos humanos, primado do voto já sabemos do que conversam antes entre eles.